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A Metamorfose dos Pássaros

Eva Ferreira

“Pensas muitas vezes na morte?” 

“Às vezes… e tu?”

“Não penso muito.”

Mas a tua pergunta revelava o contrário. A morte é para os vivos. Mostraste-me isso e este filme também.

Repleto de momentos contemplativos, esta obra cinematográfica mostra-nos essencialmente como a morte se repercute no tempo e como esta deixa marcas profundas em quem a relembra angustiosamente no presente. 

Fundindo ficção e memória, a realizadora conta a história da sua família de uma forma profunda e poética, fazendo da natureza moldura para muitas das sensações que pretende evocar. A harmonia das paisagens é antagonizada pelo sofrimento de uma família portuguesa que perde duas mães em gerações sucessivas. Estas mães são descritas como árvores que transmitem segurança na sua verticalidade e força. A perda e o luto mostram-nos que o que fica realmente da breve passagem humana é a memória, espelhada nos descendentes e naqueles que conseguimos tocar de alguma forma. 

O sofrimento é dos que ficam, – “The dead don´t know they are dead. Death is an issue for the living.” – dos que continuam a viver e a perpetuar a memória daqueles que foram dando significado às suas vidas. Quando não houver ninguém para os relembrar, certamente morrerão uma segunda vez. Este relato existencialista pode trazer ao de cima o medo da morte, a consciência do peso das memórias e a responsabilidade que sentimos para as mantermos vivas. Quando as reminiscências forem mais alegres do que dolorosas, aprendemos a recordar. Quando o medo se transformar na fome de vida, talvez saibamos como viver. 

Beatriz, avó da realizadora, é uma das mães, uma personagem central, caracterizada pela sua vivacidade. Após a sua morte, o envelhecimento daqueles que a amam ocorre com a naturalidade que lhe é intrínseca, obrigando a uma aceitação da vida após a perda: “O meu corpo já não me responde. Quando era jovem, ele era calado e eu nem dava por ele. Agora ele existe mais do que eu. (…) Sinto-me cada vez mais perto de ti, Beatriz, mas vou ter saudades de ver o mar.”

A reflexão que ocorre quase inevitavelmente ao longo do filme torna-se crucial na nossa forma de perspetivar a vida, sendo que o formato intimista em nada impede o despertar de uma análise coletiva. Demonstrando concomitantemente a nossa impotência e fragilidade perante a morte e a grandiosidade da nossa existência, esta longa-metragem reveste-se de importantes ensinamentos.

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