{"id":1004,"date":"2023-07-19T14:40:28","date_gmt":"2023-07-19T13:40:28","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=1004"},"modified":"2023-07-19T14:40:28","modified_gmt":"2023-07-19T13:40:28","slug":"as-asas-do-abismo-do-frankenstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/07\/19\/as-asas-do-abismo-do-frankenstein\/","title":{"rendered":"As Asas do Abismo do Frankenstein"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Daniel Faria<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto-me cansado\u2026. Completamente exausto, enquanto continuo a arrastar-me eternamente pelas ruas sombrias da minha mente, numa busca v\u00e3 \u00e0 procura do significado de ser eu. Sinto-me definitivamente uma mera sombra de vulto, incapaz de olhar o c\u00e9u, por nele se espelhar o vazio indefinido que \u00e9 a minha exist\u00eancia. Ah, como o corpo cai e o esp\u00edrito despeda\u00e7a-se. Olho-me ao espelho, dando-me conta estar a vaguear sem rumo pelos labirintos de mim, e dispo-me camada por camada, s\u00edlaba por s\u00edlaba. Olho-me, nu de todos os ornamentos, e sinto as queimaduras do tempo, ou\u00e7o o medo de ter de fingir n\u00e3o me importar com a marca que deixo no mundo e saboreio, for\u00e7adamente, o choro do meu desespero. Ah, como arde no meu reflexo o desejo de encontrar algu\u00e9m que me ame! Uma pessoa capaz de me ajudar a carregar a exaust\u00e3o de ter de existir, capaz de acalmar a minha f\u00faria, de preencher o meu vazio\u2026 Ah, como quero ser amado! Olho-me ao espelho e choro a minha ingenuidade, inconsciente da consci\u00eancia de que o amor \u00e9 a possibilidade mais imposs\u00edvel de todo o universo. Fecho os olhos, incapaz de continuar a olhar, e ponho, novamente, a m\u00e1scara. Ah, como me sinto leve por n\u00e3o ser eu mesmo! E por ser t\u00e3o realizador n\u00e3o me sentir oco, fundo-a comigo, converto-me na m\u00e1scara e deixo tudo o resto tornar-se cinzas, transformar-se em terra. Eu serei, agora e para sempre, vento!<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto-me, por fim, vivo! Estico as asas e voo, deixando cair em dire\u00e7\u00e3o ao nada cada tormento, todo e qualquer sentimento sup\u00e9rfluo. Corto, por fim, todos os fios que me prendiam, \u00f3 marioneta ing\u00e9nua, \u00e0 mera condi\u00e7\u00e3o humana. Sinto, euforicamente, o desejo de voar mais alto do que alguma vez algu\u00e9m alcan\u00e7ou a corroer-me, a tornar-se a base de toda a minha exist\u00eancia. Eu marcarei para sempre o Mundo. Eu transcenderei a m\u00edsera defini\u00e7\u00e3o de se ser humano. Eu criarei vida!<\/p>\n\n\n\n<p>E, assim, continuo a sonhar! Mas, talvez sonhar seja demasiado min\u00fasculo, excessivamente terreno, para ser capaz de pintar o significado da minha vida. Sonhar \u00e9 para aqueles que se contentam com a terra, que esperam, inocentemente, um dia conseguir bater as asas, sem, no entanto, terem a coragem crua de se transformarem em vento. Para eles sonhar \u00e9 uma dire\u00e7\u00e3o, um ref\u00fagio da aridez do solo. Eu n\u00e3o idealizo. Eu n\u00e3o me refugio. Eu sou, pura e simplesmente, o sonho! O meu corpo \u00e9 pura ambi\u00e7\u00e3o, o meu esp\u00edrito pura sede de conhecimento. O sonho \u00e9 o meu destino! Sem ele sou apenas p\u00f3. Por ele, violo cren\u00e7as, esmago direitos, roubo \u00f3rg\u00e3os, assalto t\u00famulos, eclipso cora\u00e7\u00f5es e coso, com ternura, os fragmentos de quem j\u00e1 foi para criar o corpo daquele que ser\u00e1 o meu salvador! Humanidade? Arrependimento? Nada disso importa enquanto voo pelos desejos de mim e torno-me barro, encarno a chama e grito, com o peso de quem finalmente existe pela primeira vez, que eu sou a vida! Eu sou o conhecimento! Eu sou o Criador! Eu, finalmente, sou!<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, como \u00e9 bela a minha inven\u00e7\u00e3o! Como ser\u00e1s invejada pela arte e pela vida!<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, abre os olhos. Levanta-se, movido pelo sopro que lhe dei e vejo o seu corpo desfigurado: a pele amarela que mal cobre os m\u00fasculos; as veias pulsantes que o acorrentam \u00e0 eterna condi\u00e7\u00e3o de existir; os seus cabelos negros das vidas que roubou; a cara p\u00e1lida pelo desespero, pela inc\u00f3gnita do ser ou n\u00e3o ser. Desejara-o com um ardor sem limite mas agora, que estava terminado, a beleza do sonho desvanecia-se, ca\u00eda at\u00e9 se tornar em nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, sinto-me a desaparecer\u2026 A voltar a n\u00e3o ser\u2026 Ah, como preciso de continuar a voar! Sinto a minha sombra a tornar a crescer. A crescer abissalmente enquanto me tenta arrastar. Ah, como \u00e9 assustador o g\u00e9lido calor do retrato por tr\u00e1s da m\u00e1scara! Corro do abismo, cortando os pulsos, perdido num sufoco.&nbsp; Ah, vem morte! Abra\u00e7a-me antes que me lembre de quem verdadeiramente sou!<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto fujo de mim, encontro-me com os olhos da minha cria\u00e7\u00e3o a penetrarem-me a alma, choroso de l\u00e1grimas que procuravam, angustiadamente, o conforto de algu\u00e9m que o ame\u2026. Horripilantemente, apercebo-me da ironia tr\u00e1gica do destino e rio-me. Rio-me, descontroladamente, como o sonhador tresloucado que sou. Rio-me enquanto arranco as minhas asas. Rio-me enquanto devoro a chama que virou cinzas, como se fosse capaz de afastar a escurid\u00e3o que sou eu. Rio-me enquanto volto a tornar-me terra. Rio-me enquanto me sinto a despeda\u00e7ar pela consci\u00eancia de tudo o que fiz.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fui barro. Eu fui fogo. Eu fui raz\u00e3o. Eu fui vida. Eu fui o sonhador\u2026 Eu sou o monstro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Faria Sinto-me cansado\u2026. 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