{"id":1173,"date":"2023-10-06T14:50:45","date_gmt":"2023-10-06T14:50:45","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/?p=1173"},"modified":"2023-10-06T14:50:45","modified_gmt":"2023-10-06T14:50:45","slug":"silencios-de-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/10\/06\/silencios-de-verao\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancios de Ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Leonor Ribeiro<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, encontrar o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 uma tarefa muito f\u00e1cil. Vivemos uma az\u00e1fama di\u00e1ria, rodeados pelo tr\u00e2nsito, pelas not\u00edcias, pelos sons dos nossos telem\u00f3veis e de toda a correria a que estamos acostumados. Os poucos momentos em que nos deparamos com o sil\u00eancio surgem \u00e0 noite, quando nos preparamos para adormecer e, por vezes, nem nessas alturas o sil\u00eancio \u00e9 t\u00e3o grande quanto gostar\u00edamos. <\/p>\n\n\n\n<p>Erling Kagge, um escritor noruegu\u00eas que escreveu o livro &#8220;Sil\u00eancio na Era do Ru\u00eddo&#8221;, fez-me pensar sobre isto mesmo. Indagar acerca da dificuldade que \u00e9, hoje em dia, perceber o que \u00e9 o sil\u00eancio e ser capaz de desfrutar dele. <\/p>\n\n\n\n<p>Depois de debater acerca da complexidade deste tema, daquela que \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de som, a conclus\u00e3o a que Erling chega \u00e9 que o verdadeiro sil\u00eancio surge de uma conce\u00e7\u00e3o interior, de um estado de esp\u00edrito, e pode ser alcan\u00e7ado mesmo no \u00e2mago da confus\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer um de n\u00f3s j\u00e1 deve ter passado por in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es em que isto acontece. O exemplo que o escritor nos d\u00e1 \u00e9 o de um jogador de futebol, quando dispara o seu remate em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 baliza. Se lhes perguntarem o qu\u00e3o alto \u00e9 o ru\u00eddo da multid\u00e3o nesse momento, e se esse ru\u00eddo permite antecipar a chegada da bola antes de esta tocar na rede, muitos afirmam que no momento em que a bola sai dos seus p\u00e9s, a aten\u00e7\u00e3o nesta \u00e9 t\u00e3o grande, que n\u00e3o t\u00eam qualquer perce\u00e7\u00e3o sobre aquilo que se desenrola \u00e0 sua volta.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, este tipo de sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 o que me espanta, e acaba por estar t\u00e3o intimamente ligado aos momentos de maior concentra\u00e7\u00e3o numa dada tarefa, que acaba por se tornar um pouco banal. N\u00e3o \u00e9 o verdadeiro sil\u00eancio, na ess\u00eancia da palavra, mas sim um sil\u00eancio mental relativo. <\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro sil\u00eancio, aquele que s\u00f3 pode ser atingido em locais extremamente raros na natureza, \u00e9 quase imposs\u00edvel de encontrar em ambientes urbanos ou \u00e1reas altamente desenvolvidas. Esse sil\u00eancio, que poucos de n\u00f3s temos a sorte de conhecer, pode ser procurado em cavernas profundas, no espa\u00e7o, em regi\u00f5es remotas e desertas e ainda no fundo do mar. <\/p>\n\n\n\n<p>Essa aus\u00eancia total de som, que desconhe\u00e7o, acredito ser despoletadora de um turbilh\u00e3o de pensamentos. Pelo menos, assim imagino que seria o meu caso. E bem sei o qu\u00e3o barulhenta e ensurdecedora consegue ser uma cabe\u00e7a pensante. Assim, apesar de o desconhecer e lhe guardar o respeito que tal raridade merece, este tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro sil\u00eancio que me fascina, e esse tal, apenas surge nos momentos em que paro para o procurar. <\/p>\n\n\n\n<p>O meu sil\u00eancio preferido \u00e9 o sil\u00eancio de ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou suspeita, esta \u00e9 a altura do ano pela qual sempre espero, pelos dias longos, pelos fins de tarde, pelo por do sol. O calor traz com ele cores diferentes, n\u00e3o s\u00f3 nas roupas mais alegres que vestimos, mas nas flores, nos v\u00e1rios tons de azul da \u00e1gua do mar, ou nos v\u00e1rios tons de verde que assomam a vegeta\u00e7\u00e3o. Tudo nesta altura me faz sentir mais leve, mais lenta, e s\u00f3 nesta altura, em que fujo \u00e0 velocidade dos outros meses do ano, \u00e9 que sou capaz de parar, e procurar o sil\u00eancio. <\/p>\n\n\n\n<p>E para vos dar um exemplo daquilo a que me refiro, decidi partilhar uma tarefa do livro criativo que escolhi completar este ver\u00e3o. Era a tarefa I5, pedia o seguinte: &#8220;Encontre um lugar sereno no qual possa acalmar a sua mente e ouca os sons da natureza que falam para si. Anote os sons que consegue ouvir&#8221;. Ao longo de dez minutos deixei-me estar de olhos fechados, e o resultado final foi este: <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A praia do galo est\u00e1 quase vazia. O som predominante \u00e9 o das ondas a bater nas rochas. Se pararmos atentos, tamb\u00e9m ouvimos um fluxo mais ligeiro de \u00e1gua a escorrer, como uma mini cascata que come\u00e7a l\u00e1 em cima nas pedras e vem descendo em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Tamb\u00e9m se ouve o vento, sobretudo quando faz abanar as plantas secas l\u00e1 no topo da arriba. \u00c0s vezes passam p\u00e1ssaros. Ouvem-se as asas a bater, tamb\u00e9m se ouve piar.&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tarefa ou sem tarefa, acredito que todos somos capazes de desacelerar uns minutos e parar para nos deixarmos envolver pelo que est\u00e1 \u00e0 nossa volta. Este sil\u00eancio, que na verdade \u00e9 o nosso sil\u00eancio, \u00e9 a vers\u00e3o de aus\u00eancia de som que mais me cativa. A calma que o ver\u00e3o me transmite, e a forma lenta como tudo se processa, desde o acordar sem despertador at\u00e9 ao deitar sem hora definida, permitem-me ter a disposi\u00e7\u00e3o para parar, procurar sil\u00eancio, e ouvir os sons que me escapam facilmente nas outras alturas do ano. <\/p>\n\n\n\n<p>Com isto, n\u00e3o estou a dizer que o som da chuva a bater na janela no inverno seja menos especial. Tamb\u00e9m n\u00e3o nego o gosto que tenho em ouvir o granizo a estalar no vidro, na \u00fanica altura do ano em que o frio \u00e9 tanto que as gotas da chuva se juntam todas em bolinhas brancas imensas. Mas sou honesta, e talvez suspeita pelo meu amor declarado ao sol e ao calor, nenhum sil\u00eancio se compara ao vento brando de ver\u00e3o a fazer abanar as folhas nas \u00e1rvores da montanha. Nenhuma onda de inverno faz as pedras da praia rolarem t\u00e3o lentamente, umas sobre as outras, como a percuss\u00e3o suave de fundo que trazem as ondas do ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, acho que este desabafo \u00e9 uma ode, em pouco po\u00e9tica, que dedico \u00e0 esta\u00e7\u00e3o do sol e do calor, das frutas maduras, das brisas quentes e das gargalhadas mais altas. Espero que passes lentamente, que estiques todos os dias do primeiro ao \u00faltimo raio de sol, e que me permitas a mim, e a todos os que se deixam encantar por esta altura, ter o tempo e a predisposi\u00e7\u00e3o para parar, fazer sil\u00eancio, e deixar revibrar nas part\u00edculas do ar, todos os sons que s\u00f3 tu trazes, para encher de cor o sil\u00eancio, que ao longo do ano, acredito ter mais tons de cinzento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonor Ribeiro Hoje em dia, encontrar o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 uma tarefa muito f\u00e1cil. Vivemos uma az\u00e1fama di\u00e1ria, rodeados pelo tr\u00e2nsito, pelas not\u00edcias, pelos sons dos nossos telem\u00f3veis e de toda a correria a que estamos acostumados. Os poucos momentos em que nos deparamos com o sil\u00eancio surgem \u00e0 noite, quando nos preparamos para adormecer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1174,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[28],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0f710bb81c2ff1aff8976239c18acfd2.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173"}],"collection":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1173"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1175,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1173\/revisions\/1175"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}