{"id":1176,"date":"2023-10-06T14:53:47","date_gmt":"2023-10-06T14:53:47","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/?p=1176"},"modified":"2023-10-06T14:53:47","modified_gmt":"2023-10-06T14:53:47","slug":"o-jardim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/10\/06\/o-jardim\/","title":{"rendered":"O Jardim"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Ana Teresa Pereira<\/p>\n\n\n\n<p>Ele e ela. Eram um contraste por vezes vincado, mas sempre desejado, sempre harmonioso e em constante <em>ecstasy<\/em>. Cada toque da m\u00e3o robusta dele na face p\u00e1lida dela era como um beijo do Sol na superf\u00edcie da Lua. Cada pensamento sussurrado timidamente pela mente dela era acolhido calorosamente pela alma aberta dele. Ele e ela. Destinados um ao outro como dois corpos celestes oriundos de um mesmo gr\u00e3o de p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Tragicamente, quis o Destino que este amor carnal findasse, que ele regressasse \u00e0 gal\u00e1xia de onde viera, que voltasse a ser \u201cp\u00f3, cinza e nada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo, ela continuou a visit\u00e1-lo, religiosamente, na sua nova morada: o jardim. Poderia ser um jardim como qualquer outro, mas neste, o ar emanava um cheiro de saudade, e estava presente o constante murm\u00fario de palavras n\u00e3o ditas e l\u00e1grimas tardiamente derramadas. Todos os dias, ela entrava pelos imponentes port\u00f5es de ferro que guardavam o jardim, e sentia a brisa de melancolia que lhe fazia esvoa\u00e7ar os cabelos, bem como o imperdo\u00e1vel toque dos raios de Sol que tentavam afagar-lhe a face e secar-lhe as l\u00e1grimas teimosas, em v\u00e3o. Todos os dias, ela encontrava-se com ele no mesmo recanto, onde sabia que ele estaria, indubit\u00e1vel e silenciosamente \u00e0 sua espera, num mar de vultos caiados e g\u00e9lidos. Ele estava diferente. A sua apar\u00eancia, outrora cativante e deleit\u00e1vel, tinha sido substitu\u00edda por um exterior austero e marmoreado, sob o qual ele se deitara infinitamente, fitando o c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, tamb\u00e9m ela iria morar no jardim. Era inevit\u00e1vel. Chegaria o dia em que uma for\u00e7a metaf\u00edsica a obrigaria a habitar novamente junto dele, e ela aguardava ansiosamente por esse aben\u00e7oado momento. Ela desejava que essa for\u00e7a ominosa lhe permitisse mudar-se para o jardim o mais cedo poss\u00edvel. Toda a alegria terrena se desvaneceu quando ele foi para l\u00e1. Os pequenos momentos silenciosos que partilhava com ele no soturno jardim eram tudo o que lhe restava. E de que servem perguntas respondidas pelo ensurdecedor sil\u00eancio da perda? De que servem confiss\u00f5es omitidas em medo, sem uma alma que as acolha? De que servem encontros fugazes sem o toque de uma m\u00e3o quente para acalmar os prantos de um choro incessante? De que serve a exist\u00eancia vivida em desespero e constante agonia? De que serve a vida, quando encoberta pelo nevoeiro perverso da saudade?<\/p>\n\n\n\n<p>Chegara, por fim, o fat\u00eddico e glorioso dia. O dia que ela tanto aguardara, que as for\u00e7as transcendentes teimaram em adiar, mas que ela decidira contrariar. O dia em que, pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, ela fez frente ao Destino e o desafiou a uni-la novamente a ele. E resultara. Talvez o Destino tivesse sentido miseric\u00f3rdia de uma alma espartilhada pelo sufoco da dor. Talvez o Destino se tivesse cansado de ouvir os pedidos de liberdade clamados por um esp\u00edrito em deteriora\u00e7\u00e3o. Talvez este fosse o plano do Destino desde o momento em que criou dois corpos celestes atrav\u00e9s do mesmo gr\u00e3o de p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim ela foi habitar, tamb\u00e9m, para o jardim. Hoje, ali est\u00e3o, lado a lado, deitados fitando o c\u00e9u. Ele e ela. Enclausurados. Esmaecidos. Estoicos. Mas juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eternamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Teresa Pereira Ele e ela. Eram um contraste por vezes vincado, mas sempre desejado, sempre harmonioso e em constante ecstasy. Cada toque da m\u00e3o robusta dele na face p\u00e1lida dela era como um beijo do Sol na superf\u00edcie da Lua. Cada pensamento sussurrado timidamente pela mente dela era acolhido calorosamente pela alma aberta dele. 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