{"id":355,"date":"2023-03-05T19:21:30","date_gmt":"2023-03-05T19:21:30","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=355"},"modified":"2023-03-05T19:21:30","modified_gmt":"2023-03-05T19:21:30","slug":"carta-de-um-medico-a-arte-da-medicina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/05\/carta-de-um-medico-a-arte-da-medicina\/","title":{"rendered":"Carta de um M\u00e9dico \u00e0 Arte da Medicina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">In\u00eas Maia<\/p>\n\n\n\n<p>Bebi da fonte da sociedade a terr\u00edvel ideia de que para se ser m\u00e9dico h\u00e1 que ser frio, indolente e indiferente. Impuseram-me a necessidade de ser impass\u00edvel e alheio \u00e0 dor dos outros para me concretizar no meio onde todas as minhas paix\u00f5es convergiam \u2013 a Medicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui sendo guiado pela gente contempor\u00e2nea e pela ideia arrasadora de que \u201cnada h\u00e1 de art\u00edstico na medicina, do mesmo modo que na arte n\u00e3o se encontram o rigor da anatomia ou a precis\u00e3o implac\u00e1vel de um bisturi\u201d. Impuseram-me a f\u00e9 retr\u00f3grada de que um m\u00e9dico n\u00e3o tem nada de artista, nem um artista pode sequer aspirar a ser m\u00e9dico! Como se a Arte e a Medicina fossem realidades intoc\u00e1veis, divergentes e irreconcili\u00e1veis!<\/p>\n\n\n\n<p>Fizeram-me crer que para ter uma teria for\u00e7osamente de abandonar a outra. Abateu-se sobre mim um v\u00e9u de desconsola\u00e7\u00e3o tremenda. Se por um lado o estudo da Medicina era o ponto onde convergiam todas as minhas vontades, eram o cultivo e a aprecia\u00e7\u00e3o da Arte que me davam as ferramentas para tra\u00e7ar e saborear esse caminho. Sonhei, assim, que me vedavam o caminho, que a vida se repartia e algo me falhava. Julguei que perdia uma parte de mim ao ter de abdicar da outra. Com o tempo veio a sabedoria e a certeza de que o m\u00e9dico \u00e9 o mais completo dos artistas, tendo sob seu dom\u00ednio variad\u00edssimas artes e modos de express\u00e3o, cujo uso astuto lhe trar\u00e1 a excel\u00eancia da sua pr\u00e1tica, ao inv\u00e9s de uma mediocridade content\u00e1vel. A teoria e a ci\u00eancia fizeram de mim um bom m\u00e9dico, capaz, cr\u00edtico, racional e trouxeram as ferramentas do meu trabalho. A sensibilidade, os valores, a \u00e9tica e a minha humanidade fizeram-me excelente, pois trouxeram-me a sabedoria de saber quando e como aplicar o conhecimento engenhoso da melhor forma poss\u00edvel. Privar os aspirantes \u00e0 medicina da sua humanidade sens\u00edvel \u00e9 educ\u00e1-los para serem sombras mec\u00e2nicas e robotizadas no teatro sempre imprevis\u00edvel e heterog\u00e9neo da condi\u00e7\u00e3o humana!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, m\u00e9dicos, somos os verdadeiros maestros da incr\u00edvel e, por vezes, dom\u00e1vel orquestra das sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es! O controlo sapiente das nossas emo\u00e7\u00f5es \u00e9 o que nos permite exercer com ast\u00facia, rever\u00eancia, destaque e excel\u00eancia a verdadeira no\u00e7\u00e3o da Medicina! Saber distinguir o momento de ser-se emp\u00e1tico e dar aos outros um pouco da nossa humanidade, porque a deles lhes falha, esvanece ou suplica pela nossa; ser firme e implac\u00e1vel na urg\u00eancia de um caso cujo desfecho depende unicamente dos nossos passos e gestos seguintes; aprender a arte de ouvir, explicar e orientar; abandonar as dores e a culpa imerecida; viver com gratid\u00e3o os sucessos alcan\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, sou m\u00e9dico. Hoje, vivo do que a arte da sensibilidade e o conhecimento da ci\u00eancia me proporcionam. Em tudo vejo Arte, do mesmo modo que tudo me reaviva a chama de saber Medicina.<\/p>\n\n\n\n<p>Os restantes, os que impuseram a m\u00e1-f\u00e9 de restringir um m\u00e9dico \u00e0 bata branca da insensibilidade e \u00e0 armadura esqu\u00e1lida da frieza contra todos os afetos, enganaram-me e enganaram-se! Nada h\u00e1 de mais art\u00edstico do que a aprecia\u00e7\u00e3o hol\u00edstica da condi\u00e7\u00e3o humana aos olhos da pr\u00e1tica m\u00e9dica!<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano, o objeto da nossa ci\u00eancia, \u00e9 essencialmente deslumbrante: oculta a imensid\u00e3o secreta da anatomia, a complexidade dos processos bioqu\u00edmicos infal\u00edveis, a disposi\u00e7\u00e3o majestosa e rigorosa dos \u00f3rg\u00e3os, a hierarquia das c\u00e9lulas aos sistemas org\u00e2nicos; e debaixo da mat\u00e9ria imensa que o constitui, oculta mil sonhos e vontades, emo\u00e7\u00f5es transbordantes, paix\u00f5es po\u00e9ticas, aspira\u00e7\u00f5es ilustres e motivos, sensa\u00e7\u00f5es, pensamentos e ideias que nos tornam verdadeiramente imortais e infinitos!<\/p>\n\n\n\n<p>Rejeitavam-me como m\u00e9dico, porque era amante das letras, da pintura, da m\u00fasica e de todas as demais formas de arte. Esqueciam-se que a sensibilidade das palavras me trouxera a capacidade de explicar, orientar, lastimar e confortar os que mais precisavam. Esqueceram-se que nos romances liter\u00e1rios e nas telas renascentistas e contempor\u00e2neas, descobri as facetas e as sensa\u00e7\u00f5es, o pensar e as diferentes formas de sentir, viver e idealizar do ser humano! Esqueceram-se que a m\u00fasica me emprestou a capacidade de escutar, em vez de ouvir. Esqueceram-se que a arte me deu um conhecimento maior da ess\u00eancia humana, para a qual nenhum catedr\u00e1tico me conseguiria despertar.<\/p>\n\n\n\n<p>E se descubro nas entrelinhas de um soneto os sentidos ocultos das palavras, reconhe\u00e7o com igual espanto e deleite as min\u00facias anat\u00f3micas da fisionomia humana! Tudo se articula e organiza, cada \u00f3rg\u00e3o ocupa o seu lugar, assim como para as palavras existem ordens pr\u00e9-estabelecidas. A excentricidade de um verso produz no leitor o mesmo del\u00edrio e desconcerto que uma altera\u00e7\u00e3o celular inconveniente num tecido humano. A incis\u00e3o de um bisturi \u00e9 t\u00e3o implac\u00e1vel e cortante como uma express\u00e3o liter\u00e1ria brusca e dilacerante. As palavras cavalgam outras, tecendo uma teia emaranhada de sentidos e filosofias, aparentemente ca\u00f3ticos, mas extremamente organizados e com sentido. Assim se disp\u00f5em todos os \u00f3rg\u00e3os, formando \u00e2ngulos e posi\u00e7\u00f5es curiosas, assumindo a paleta de cores de uma tremenda e sufocante confus\u00e3o que nos habita e cont\u00e9m todo sentido da nossa exist\u00eancia!<\/p>\n\n\n\n<p>A sensibilidade, a empatia e a compaix\u00e3o, a par com tantas outras virtudes humanas, fizeram de mim m\u00e9dico, ao inv\u00e9s de um mero mesquinho aspirante \u00e0 medicina. Trouxeram-me clareza e despertaram em mim sensa\u00e7\u00f5es vorazes e tenazes, fizeram-me chorar a morte e o nascimento, lastimar as perdas e recuperar as culpas da derrota e o orgulho das vit\u00f3rias. Trouxeram-me uma humanidade que quase me obrigaram a esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Fizeram de mim Homem para servir toda a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00eas Maia Bebi da fonte da sociedade a terr\u00edvel ideia de que para se ser m\u00e9dico h\u00e1 que ser frio, indolente e indiferente. Impuseram-me a necessidade de ser impass\u00edvel e alheio \u00e0 dor dos outros para me concretizar no meio onde todas as minhas paix\u00f5es convergiam \u2013 a Medicina. 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