{"id":364,"date":"2023-03-05T19:42:37","date_gmt":"2023-03-05T19:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=364"},"modified":"2023-03-05T19:42:37","modified_gmt":"2023-03-05T19:42:37","slug":"eu-e-o-outro-deambulacoes-de-utilidade-questionavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/05\/eu-e-o-outro-deambulacoes-de-utilidade-questionavel\/","title":{"rendered":"Eu e o outro: deambula\u00e7\u00f5es de utilidade question\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Jo\u00e3o Afonso Santos<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;eu&#8221; \u00e9 um t\u00f3pico estranho, por nos ser simultaneamente t\u00e3o pr\u00f3ximo e t\u00e3o enevoado. <\/p>\n\n\n\n<p>Podemos viver a vida sem pensar nisso, continuando a ser o que somos, talvez assim de forma mais assertiva e s\u00f3lida. Podemos tamb\u00e9m abolir a complexidade e adotarmos uma narrativa e um conjunto de caracter\u00edsticas para formar um quadro de quem n\u00f3s somos, contudo creio que essa obra talvez se cinja mais \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 identidade na rela\u00e7\u00e3o com o outro, pecando numa simplicidade confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentar perceber as causalidades por detr\u00e1s de quem somos \u00e9 uma tarefa herc\u00falea, \u00e9 perspetivar um abismo t\u00e3o eminente, repleto de hist\u00f3rias, momentos, pessoas, lugares, uma quantidade avassaladora de for\u00e7as que poder\u00e1 levar a uma resposta de curiosidade, evas\u00e3o, ou paralisia silenciosa. Atravessar esse bosque pode ser frutuoso (perceber os porqu\u00eas de quem somos \u00e9 uma componente da intelig\u00eancia emocional), pode ser tamb\u00e9m extremamente doloroso, at\u00e9 destrutivo, e portanto creio que n\u00e3o se deve glorificar nem demonizar de um modo geral atitudes de evas\u00e3o \u00e0 auto-explora\u00e7\u00e3o. Claro que existem pessoas cuja vida na sua totalidade \u00e9 evas\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o, e apesar de ,em certos casos, ser esse o caminho mais confort\u00e1vel, essa vida apresenta-se como amputada. Por outro lado, uma vida sem qualquer tipo de fugas \u00e9 demasiado impactante e exaustiva: n\u00e3o desejo epifanias di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Passando \u00e0 frente a quest\u00e3o das raz\u00f5es por detr\u00e1s da nossa ess\u00eancia, foco no que a constitui. Nesta quest\u00e3o, tende-se a focar bastante nas caracter\u00edsticas que definem uma pessoa, definindo uma pessoa pela seu sentido de humor ou falta dele, pela sua avareza ou humildade, etc\u2026 percebo a abordagem, mas estas caracter\u00edsticas n\u00e3o s\u00e3o permanentes, oscilam no decorrer da tempo, ora se manifestam, ora n\u00e3o existem. Um bom prisma para esta quest\u00e3o \u00e9 a do amor (no sentido de interesse pessoal,<br>n\u00e3o exclusivamente corp\u00f3reo- a palavra &#8220;amor&#8221; tem muita bagagem). Quando se ama algu\u00e9m, n\u00e3o se ama estes tra\u00e7os de personalidade per se, pois s\u00e3o inconstantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Relativamente a esta quest\u00e3o, numa leitura recente fui introduzido ao conceito de singularidade. Este conceito pode-se referir por exemplo a uma obra de arte, quando esta, sempre indissoci\u00e1vel de algum tipo de contexto (espacial ou cultural), tendo como fundamento caracter\u00edsticas desse contexto, n\u00e3o se limita a apresent\u00e1-las (como um artefacto folcl\u00f3rico), mas sim a exp\u00f4-las de uma forma pr\u00f3pria, e \u00e9 esta forma de express\u00e3o que se define como a sua singularidade, transformado bases particulares em elementos universais, que qualquer humano, apesar de distante do contexto originador, consiga &#8220;perceber&#8221;. Um exemplo concreto da singularidade \u00e9 o g\u00e9nero da literatura de viagem, em que apesar do leitor nunca ter visitado o local em quest\u00e3o, acompanha o autor com uma supreendente proximidade (devido \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o que o autor faz da experi\u00eancia vivida, num processo de universaliza\u00e7\u00e3o, focando no que nos une: ser humano). Mas o conceito de singularidade n\u00e3o se restringe \u00e0 arte, as pessoas s\u00e3o tamb\u00e9m singulares e acredito que \u00e9 isto que nos despoleta o interesse no contexto do amor. N\u00e3o s\u00e3o os tra\u00e7os de personalidade que s\u00e3o objeto da nossa admira\u00e7\u00e3o, s\u00e3o a forma como s\u00e3o apresentados, de forma brusca ou discreta, e \u00e9 isso que nos distingue e \u00e9 isso que amamos no outro, s\u00e3o os momentos e express\u00f5es em que revelamos a nossa hist\u00f3ria de uma forma crua, simultanteamente pr\u00f3pria e universal. O nosso ser encontra-se portanto na express\u00e3o, n\u00e3o nas caracter\u00edsticas em si. Perante a singularidade do outro, sentimos um tipo de liga\u00e7\u00e3o (caso nos permitamos a isso) em que tudo que n\u00e3o \u00e9 o presente se desfoca, em que os abismos colidem.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o os momentos em que o romantismo se aproxima do real.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: L\u00e9na Ma\u010dka<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Afonso Santos O &#8220;eu&#8221; \u00e9 um t\u00f3pico estranho, por nos ser simultaneamente t\u00e3o pr\u00f3ximo e t\u00e3o enevoado. Podemos viver a vida sem pensar nisso, continuando a ser o que somos, talvez assim de forma mais assertiva e s\u00f3lida. 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