{"id":385,"date":"2023-03-08T10:28:42","date_gmt":"2023-03-08T10:28:42","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=385"},"modified":"2023-03-08T10:28:42","modified_gmt":"2023-03-08T10:28:42","slug":"o-mito-de-sisifo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/08\/o-mito-de-sisifo\/","title":{"rendered":"O Mito de S\u00edsifo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Eva Ferreira<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs deuses tinham condenado S\u00edsifo a empurrar sem descanso um rochedo at\u00e9 ao cume de uma montanha, de onde a pedra ca\u00eda de novo, em consequ\u00eancia do seu peso. Tinham pensado, com alguma raz\u00e3o, que n\u00e3o h\u00e1 castigo mais terr\u00edvel do que o trabalho in\u00fatil e sem esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O que faz deste mito tr\u00e1gico \u00e9 a consci\u00eancia de S\u00edsifo. Onde estaria a sua tortura se a cada passo dado conseguisse sentir concomitantemente esperan\u00e7a? Alguns trabalhadores baseiam diariamente a sua vida nas mesmas tarefas. Ser\u00e1 a sua vida tr\u00e1gica nos momentos em que tomam consci\u00eancia desta? Julgar se a vida merece ou n\u00e3o ser vivida \u00e9 responder a uma quest\u00e3o fundamental da filosofia. Para isso, precisamos de perceber se a vida do Homem no mundo tem algum sentido. Para Camus, o absurdo n\u00e3o est\u00e1 no homem nem no mundo, mas na exist\u00eancia do homem neste mundo. Conseguiremos ent\u00e3o imaginar S\u00edsifo feliz neste absurdo?<\/p>\n\n\n\n<p>Camus pretende saber se, aceitando viver sem esperan\u00e7a, num mundo sem sentido e absurdo, \u00e9 poss\u00edvel consentir em trabalhar e criar, num constante div\u00f3rcio entre o esp\u00edrito que deseja e o mundo inintelig\u00edvel que o desilude. Quer saber se consegue pensar e viver com estas feridas abertas ou se este racioc\u00ednio leva \u00e0 recusa da vida, ao suic\u00eddio. \u00c9 aqui que surge a ideia da revolta como sin\u00f3nimo de vida. O suic\u00eddio seria uma ren\u00fancia, uma aceita\u00e7\u00e3o passiva do absurdo. Viver exige mais coragem e uma maior revolta. Pelo contr\u00e1rio, o suic\u00eddio seria uma precipita\u00e7\u00e3o para o inevit\u00e1vel futuro do homem, que \u00e9 a certeza da morte. Da mesma forma, a religi\u00e3o surge como um enfraquecimento do homem, como uma tentativa de ganhar esperan\u00e7as num mundo sem sentido. Camus defende que, para n\u00e3o cairmos numa \u201ccegueira volunt\u00e1ria\u201d, devemos negar qualquer consola\u00e7\u00e3o sobrenatural, vivendo numa permanente lucidez, no que considera ser a \u201crealidade nua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a consci\u00eancia e a revolta s\u00e3o os pilares desta forma de viver, aliados \u00e0 liberdade e \u00e0 paix\u00e3o que resultam do estado de lucidez e do pensamento com clareza. Para al\u00e9m disso, Camus acredita que, esgotando todas as experi\u00eancias no campo do poss\u00edvel, conseguiremos originar for\u00e7as para viver numa realidade que, por vezes, ultrapassa o nosso entendimento. Nietzsche escreve: \u201cObedecer por muito tempo e na mesma dire\u00e7\u00e3o: com o tempo, resulta da\u00ed qualquer coisa pela qual vale a pena viver nesta Terra, como por exemplo a virtude, a arte, a m\u00fasica, a dan\u00e7a, a raz\u00e3o, o esp\u00edrito, qualquer coisa que transfigura, qualquer coisa de requintado, de louco ou de divino.\u201d, mostrando como o homem absurdo vive.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, talvez consiga imaginar S\u00edsifo feliz. Tamb\u00e9m n\u00f3s, muitas das vezes, realizamos automaticamente tarefas, sem conseguirmos libertar-nos destas. Camus escolhe S\u00edsifo porque este odeia a morte. De facto, S\u00edsifo, na mitologia grega, foi condenado a realizar o mesmo trabalho eternamente, pois engana a morte duas vezes, vivendo uma longa vida e morrendo de velhice. Tamb\u00e9m para o homem revoltado a morte \u00e9 a exalta\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a. O homem parece estar antecipadamente vencido na vida, j\u00e1 que o seu final \u00e9 certo. Resta-lhe viver com paix\u00e3o, afirmando as contradi\u00e7\u00f5es deste mundo sem cair na ilus\u00e3o e em cren\u00e7as que tentam explicar o absurdo. Esta consci\u00eancia poderia levar o ser humano \u00e0 desist\u00eancia. Contudo, tal como na situa\u00e7\u00e3o de S\u00edsifo, a nossa desgra\u00e7a neste mundo desrazo\u00e1vel pode acompanhar a nossa vit\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eva Ferreira \u201cOs deuses tinham condenado S\u00edsifo a empurrar sem descanso um rochedo at\u00e9 ao cume de uma montanha, de onde a pedra ca\u00eda de novo, em consequ\u00eancia do seu peso. 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