{"id":389,"date":"2023-03-08T10:31:35","date_gmt":"2023-03-08T10:31:35","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=389"},"modified":"2023-03-08T10:31:35","modified_gmt":"2023-03-08T10:31:35","slug":"o-quotidiano-como-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/08\/o-quotidiano-como-lugar\/","title":{"rendered":"O Quotidiano como Lugar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Nina Grillo<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e3o ainda algumas, sen\u00e3o quase todas, as manh\u00e3s do \u201cde sempre\u201d. Do caf\u00e9 que cheira antes da cafeteira avisar; o iogurte matinal que sabe n\u00e3o t\u00e3o bem, mas que at\u00e9 convence, com os seus 0% de gordura e 10g de prote\u00edna. Quem \u00e9 que gosta genuinamente de iogurte, sem d\u00favidas nenhumas sobre o assunto? Fruta, sim. Caf\u00e9, com certeza. Iogurte, n\u00e3o sei bem, mas est\u00e1 l\u00e1, na prateleira de cima do frigor\u00edfico, e todas as manh\u00e3s tiro um. Depois, banho. Banho e contas de cabe\u00e7a, sempre demasiado lentas, para tirar conclus\u00f5es acerca da mais-valia de se lavar ou n\u00e3o o cabelo naquele dia. Vestir-me tamb\u00e9m acontece, mas s\u00f3 depois de perder 183 segundos a olhar para a imensid\u00e3o que se torna o arm\u00e1rio de roupas, nas primeiras horas do dia, mesmo que seja pequeno (e principalmente se o for), apenas para depois escolher as mesmas cal\u00e7as de guerra e algo sem grandes padr\u00f5es para a parte de cima.S\u00e3o os rituais das pequenas coisas, que repetidamente nos mant\u00eam \u00e0 superf\u00edcie, tipo boia que dan\u00e7a no lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns muitos, nestes \u00faltimos tempos de casa, o que se segue passa por contemplar um ecr\u00e3, com vista para algu\u00e9m que tamb\u00e9m olha para um ecr\u00e3, doutro lugar. Onde estar\u00e1 hoje o link do <em>zoom<\/em>?<em> Intranet, teams, mail? <\/em>Enumero todos estes com alguma pregui\u00e7a, por pensar que\u00a0 talvez pud\u00e9ssemos perder menos tempo com este tipo de \u201c<em>lugares\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, Marc Aug\u00e9, antrop\u00f3logo franc\u00eas, definiu os <em>n\u00e3o-lugares <\/em>como espa\u00e7os opostos ao lar, sendo estes representados por espa\u00e7os p\u00fablicos de r\u00e1pida circula\u00e7\u00e3o e pouca intera\u00e7\u00e3o, lugares por onde se passa enquanto nos dirigimos a outros lugares. Aeroportos, esta\u00e7\u00f5es de comboio, meios de transporte, quartos de hotel, supermercados.Nos dias de hoje, Aug\u00e9 defende que o <em>n\u00e3o-lugar<\/em> passou a ser contexto de todos os lugares poss\u00edveis, na medida em que os dispositivos nos acomodam num<em> n\u00e3o-lugar<\/em> constante. Torna-se dif\u00edcil de fugir ao n\u00e3o-lugar, se o carregamos muitas vezes ao bolso. As telas, port\u00e1teis ou n\u00e3o, como qualquer janela, apresentam-nos um outro lado, frente a frente, mas fora de alcance. Vis\u00edvel, sem se poder agarrar com as m\u00e3os. Muitas vezes a cada hora, durante um dia inteiro, e em qualquer lugar do mundo, encontramo-nos numa posi\u00e7\u00e3o paradoxal, que nos permite contactar com qualquer outro, na velocidade duma mensagem instant\u00e2nea ou duma chamada de v\u00eddeo, mas continuamos sem tempo de o fazer. Ir ao encontro do outro tem acontecido de maneira cada vez mais acess\u00edvel, mas com menos frequ\u00eancia; veloz, mas sempre com pressa. As telas desenvolvem-se no sentido de ficarem cada vez maiores e com mais defini\u00e7\u00e3o, mas torna-se cada vez menor o espa\u00e7o para o outro nestes <em>p\u00edxeis<\/em>. Estamos mais perto, mas longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo em casa (e cada vez mais, em casa), no espa\u00e7o considerado o mais pessoal, e mesmo em tempos pr\u00e9-pand\u00e9micos, j\u00e1 nos encontr\u00e1vamos sentados diante da televis\u00e3o, olhando ao mesmo tempo para o telem\u00f3vel, com outras pessoas \u00e0 volta, a olhar para as respectivas telas, com os fones de ouvido postos. Todos a <em>conviver <\/em>(ou coexistir) com algum ru\u00eddo de fundo. Cada um a habitar as linhas delimitadas pelo seu <em>n\u00e3o-lugar, <\/em>que segrega de um lugar comum, em que o outro se afirma e existe<em>. <\/em>A dist\u00e2ncia j\u00e1 existia, muito antes da dist\u00e2ncia de seguran\u00e7a, agora recomendada pelas autoridades de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que a pandemia veio acentuar ainda mais estas linhas, risc\u00e1-las com mais for\u00e7a. Pergunto-me muitas vezes qual ser\u00e1 a for\u00e7a contr\u00e1ria adequada a exercer, nestes tempos. H\u00e1 um verso de um poeta bastante novo, chamado Francisco Mallmann, que diz algo sobre as tantas coisas, que dependem de quantos passos se consegue dar, depois de se cruzar <em>linhas imagin\u00e1rias. <\/em>Arrisco-me a dizer que Aug\u00e9 concordaria que as tais linhas tudo t\u00eam a ver com janelas (sejam elas buracos, fendas, frestas, olhos ou ecr\u00e3s); com o outro, do outro lado; e o impacto no um, que vai ao encontro deste outro (seja ele pessoa, sentimento ou lugar), apercebendo-se da sua exist\u00eancia, como ocupante de espa\u00e7o e merecedora de tempo. Mas como cruzar linhas imagin\u00e1rias, especialmente em tempos de v\u00edrus, sem representar um risco ao outro, a todos?<\/p>\n\n\n\n<p>Se pensarmos que o computador est\u00e1 apoiado em cima duma mesa, com vista para outra janela, diferente das 19 janelas abertas no browser, talvez seja mais f\u00e1cil desviar o olhar e lembrar que existe rua; ver a vizinha a estender a roupa e imaginar o que a espera dentro de casa; reparar que os avi\u00f5es passam muito tempo antes do seu pr\u00f3prio som. Ser capaz de parar, abstrair, e de cultivar a curiosidade pelo outro lado da janela, \u00e9 um m\u00fasculo que se exercita, como tantos outros. Se estamos restritos ao <em>lado de c\u00e1<\/em>, por tempo prolongado, \u00e9 porque a tecnologia assim o permite, mas tamb\u00e9m porque nos deixamos cair no desinteresse pelo que ocupa lugar \u00e0 volta. Olhar como quem procura \u00e9 diferente de olhar como quem v\u00ea.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que ser\u00e3o ainda algumas, sen\u00e3o quase todas, as manh\u00e3s do de sempre. Afasto o telem\u00f3vel e sei que \u00e9 religioso, n\u00e3o falha: o caf\u00e9 cheira antes da cafeteira avisar. Abro as persianas e n\u00e3o abandono a ideia de que nos peda\u00e7os de c\u00e9u que n\u00e3o vejo, atr\u00e1s das casas do outro lado da rua, pode haver p\u00e1ssaros que voam baixinho. A vizinha tamb\u00e9m j\u00e1 estende a roupa. Talvez desta vez possa levantar a m\u00e3o e acenar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nina Grillo Ser\u00e3o ainda algumas, sen\u00e3o quase todas, as manh\u00e3s do \u201cde sempre\u201d. Do caf\u00e9 que cheira antes da cafeteira avisar; o iogurte matinal que sabe n\u00e3o t\u00e3o bem, mas que at\u00e9 convence, com os seus 0% de gordura e 10g de prote\u00edna. 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