{"id":397,"date":"2023-03-09T14:04:22","date_gmt":"2023-03-09T14:04:22","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=397"},"modified":"2023-03-09T14:04:22","modified_gmt":"2023-03-09T14:04:22","slug":"perfect-blue-a-despersonalizacao-e-desmoronamento-mental-numa-obra-de-satoshi-kon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/09\/perfect-blue-a-despersonalizacao-e-desmoronamento-mental-numa-obra-de-satoshi-kon\/","title":{"rendered":"\u00a0 Perfect blue \u2013 a despersonaliza\u00e7\u00e3o e desmoronamento mental numa obra de Satoshi Kon"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Mariana Barroso<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Satoshi Kon conseguiu exemplificar, atrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o japonesa, o processo das doen\u00e7as mentais. No caso de Perfect Blue, houve o culminar num desgaste emocional e desfecho tr\u00e1gicos, ap\u00f3s as personagens n\u00e3o terem recebido a devida compreens\u00e3o por parte de uma sociedade doente. Sociedade doente esta que nos cabe a n\u00f3s curar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nunca vi um filme de Satoshi Kon em que n\u00e3o ficasse perturbada e inquietada com todo o enredo que ele cria. \u00c9 inevit\u00e1vel ver um dos seus filmes e n\u00e3o reparar na constru\u00e7\u00e3o das personagens, na cria\u00e7\u00e3o de planos de fundo, ou na complexidade psicol\u00f3gica com que tudo isto se funde. Uma das obras que mais me marcou, a n\u00edvel de crescimento pessoal, foi o <em>Perfect Blue<\/em>, criado em 1997.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Perfect blue<\/em> \u00e9, literalmente, um filme doente. \u00c9 doente porque \u00e9 um drama real, porque consegue mergulhar o espectador na distor\u00e7\u00e3o do sonho e da realidade, t\u00e3o assustadoramente vivido pela personagem principal, pelos cen\u00e1rios, pela sociedade em que ela se insere.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta cria\u00e7\u00e3o de Satoshi, insere-nos no mundo de Mima: uma cantora pop que decide abandonar a carreira para se tornar atriz, algo que n\u00e3o \u00e9 aceite por um dos seus f\u00e3s mais obsessivos, que n\u00e3o consegue encarar a nova realidade. Com a mudan\u00e7a radical de vida, Mima come\u00e7a a entrar num conflito interno assombrado pelas incertezas do futuro e experiencia a terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de perda da identidade pessoal, em que a realidade e fic\u00e7\u00e3o se tornam num s\u00f3 e ela existe em dois estados de ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, conhecemos a hist\u00f3ria de um <em>stalker<\/em> violento, conhecido como Me-Mania. No filme, nunca passou despercebida esta obsess\u00e3o, e podemos notar isso logo no final do show de despedida. A ideia que ele cria de que a Mima atriz \u00e9 uma impostora leva-o a comportamentos de persegui\u00e7\u00e3o anormais, desencadeando um agravamento do desmoronamento do \u201ceu\u201d da mesma, levando-a a viver nas suas ilus\u00f5es n\u00e3o distintivas da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa \u00e9poca em que as convic\u00e7\u00f5es e os sonhos podem ser postos em causa pela sociedade, n\u00e3o deixa de ser assustador pensar o quanto isso pode vir a contribuir para a transcend\u00eancia da identidade pessoal, e contribuir para o desenvolvimento de uma perturba\u00e7\u00e3o mental. Desta forma, <em>Perfect Blue<\/em> surpreendeu-me ao inserir-me no mundo psicologicamente complexo das personagens. Fez-me questionar a desconhecida e terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de perder a no\u00e7\u00e3o de quem sou, atrav\u00e9s de uma atmosfera dram\u00e1tica e de suspense, a qual Satoshi sabe t\u00e3o bem criar.<\/p>\n\n\n\n<p>Terminando a minha reflex\u00e3o, e recomenda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o posso deixar de salientar o qu\u00e3o importante \u00e9 abordar cuidadosamente a sa\u00fade mental. Esta \u00e9, sem d\u00favida, a ponte de constru\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, e deve ser abordada com a import\u00e2ncia que merece. Nada \u00e9 mais devastador do que a impot\u00eancia de n\u00e3o conseguirmos controlar o que somos, ou o que queremos ser; do que vivermos em constante conflito com o nosso mundo; do que n\u00e3o nos conseguirmos inserir no mundo ao nosso redor.<\/p>\n\n\n\n<p>Satoshi Kon conseguiu exemplificar, atrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o japonesa, o processo das doen\u00e7as mentais. No caso de <em>Perfect Blue<\/em>, houve o culminar num desgaste emocional e desfecho tr\u00e1gicos, ap\u00f3s as personagens n\u00e3o terem recebido a devida compreens\u00e3o por parte de uma sociedade doente. Sociedade doente esta que nos cabe a n\u00f3s curar.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente (ou n\u00e3o), <em>Perfect Blue<\/em> conseguiu ser t\u00e3o inovador que inspirou novos filmes, de que \u00e9 exemplo <em>Requiem for a Dream<\/em>, direcionado por Darren Aronofsky. Aronofsky chegou at\u00e9 a comprar os direitos de imagem do filme, para realizar a cena da banheira do <em>Requiem <\/em>(de que os espetadores certamente se recordam). A semelhan\u00e7a da anima\u00e7\u00e3o japonesa a certos aspetos de <em>Black Swan<\/em> (direcionado tamb\u00e9m por Aronofsky) levantou tamb\u00e9m d\u00favidas nos espectadores, embora o mesmo negue qualquer influ\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Barroso Satoshi Kon conseguiu exemplificar, atrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o japonesa, o processo das doen\u00e7as mentais. No caso de Perfect Blue, houve o culminar num desgaste emocional e desfecho tr\u00e1gicos, ap\u00f3s as personagens n\u00e3o terem recebido a devida compreens\u00e3o por parte de uma sociedade doente. Sociedade doente esta que nos cabe a n\u00f3s curar. 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