{"id":422,"date":"2023-03-09T14:22:35","date_gmt":"2023-03-09T14:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=422"},"modified":"2023-03-09T14:22:35","modified_gmt":"2023-03-09T14:22:35","slug":"treguas-com-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/09\/treguas-com-o-tempo\/","title":{"rendered":"Tr\u00e9guas com o tempo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">In\u00eas Maia<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima got\u00edcula de chuva derrama-se e escorre pela vidra\u00e7a, projetando-se no meu reflexo vago, como que contornando o aspeto enrugado da minha face esquecida, qual derradeira l\u00e1grima que acabarei por verter, finalmente\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Na vidra\u00e7a poeirenta e com leves sulcos de desapego que condizem com a humidade esquecida destas paredes s\u00f3brias e deste casar\u00e3o imensamente solit\u00e1rio, vejo ao de leve, e como fatal\u00edssima revela\u00e7\u00e3o, o rosto de algu\u00e9m que desconhe\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito que force a vista cansada e turva, mais n\u00e3o reconhe\u00e7o que uma mancha esqu\u00e1lida, enrugada, quase como que apagada, impressa na maldita vidra\u00e7a feita em p\u00f3 e ang\u00fastia. Por fim, e para grande descontentamento pr\u00f3prio, revejo-me naqueles contornos obliquamente indistintos, soturnos, p\u00e1lidos, fadados ao esquecimento\u2026 Sou eu quem imprime a imagem fantasmag\u00f3rica e transl\u00facida na vidra\u00e7a deste c\u00f3modo\u2026Sou eu, profundamente condenado \u00e0s for\u00e7as extr\u00ednsecas e inexor\u00e1veis do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desvio o olhar fixo do vidro para evitar rever-me no meu pr\u00f3prio reflexo espelhado. No entanto, e como que perip\u00e9cia mal\u00e9vola do destino, pouso, inconsequentemente, o olhar naquilo que identifico como sendo as minhas m\u00e3os, pernas, p\u00e9s\u2026 o olhar foge-me para as m\u00e3os largas, enrugadas e brancas, para o peso corporal que afunda na fealdade da poltrona gasta, para a vontade esmaecida de algu\u00e9m que outrora fora mais do que hoje \u00e9\u2026A vida passa e leva consigo muitas coisas, mas ao fim da sua passagem tudo nos pesa e sufoca, como se o sil\u00eancio e o vazio fossem mat\u00e9ria de maior peso que tudo o que at\u00e9 ent\u00e3o se julgava ser de relevo.<\/p>\n\n\n\n<p>E o esquecimento\u2026esse retira a propriedade de tudo aquilo que outrora julgava ser meu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tudo isto revejo e pressinto uma imensa solid\u00e3o, sinto uma profunda desconex\u00e3o, como se para viver fossem precisas linhas claras e causais, e tudo neste momento estivesse numa dispers\u00e3o tal que a vida, em si, perde o sentido de ser por si pr\u00f3pria. Julgo que vivi a vida inteira para, finalmente, me cansar de a viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumido a um nada bem grande, abandono estes pensamentos para encontrar, com o olhar pesado e a mente angustiada, um retrato outrora bem conhecido de duas figuras direitas que a minha vista turva, envolvidas numa moldura de prata escurecida pelo tempo e que apenas serve para conferir um tom antiquado e triste ao meu pre\u00e2mbulo mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 distante\u2026t\u00e3o distante est\u00e1 este retrato quanto tudo me est\u00e1 neste momento.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida seguiu-se, os eventos enovelaram-se numa sequ\u00eancia interessante, mas que a cada dia me escorre das entranhas da mem\u00f3ria, para ent\u00e3o, perversamente, me escapar para sempre. Como me inquieta o esquecimento, o pr\u00f3prio e o de terceiros!<\/p>\n\n\n\n<p>Na aldeia cujo nome se esqueceu e na qual os dias pesam e queimam e as noites avan\u00e7am com despedidas mudas e sonolentas, vivi os meus dias at\u00e9 estes perderem o seu sentido e prop\u00f3sito e, desta forma t\u00e3o ingrata, subsisti aos dias secos e vazios e ao medo das noites finitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui tudo se deixou permanecer, calmo, est\u00e1tico, imut\u00e1vel, como se a natureza zombasse das marcas temporais que nos acometem e que nela apenas trazem beleza, costume e prolongamentos felizes de nova revitaliza\u00e7\u00e3o\u2026a n\u00f3s, o tempo deixa a senten\u00e7a de n\u00e3o retorno e alarga a esfera da aus\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A aldeia tamb\u00e9m ficou sem gente, envolvida numa atmosfera muda e mon\u00f3tona, sem alma ou gracejo que avive a chama do aut\u00eantico querer humano. Todos os dias s\u00e3o iguais: a mesma manh\u00e3 rompe e l\u00e1 nos plantamos defronte as janelas das nossas casas, com o olhar fixo l\u00e1 fora, o corpo preso c\u00e1 dentro. A nossa vontade \u00e9 a de voar com aquele vento que sopra as \u00e1rvores e traz melodia ao sil\u00eancio das manh\u00e3s. O nosso querer transp\u00f5e estas montanhas, este c\u00e9u limitado, as restri\u00e7\u00f5es corporais que a velhice nos imp\u00f5e. Vamos para al\u00e9m de tudo isto, numa ingenuidade de crian\u00e7a que nos ampara os minutos e traz alguma consola\u00e7\u00e3o. No hiato espacial entre a realidade e o sonho, somos mais felizes. Nem estamos t\u00e3o embebidos na ilus\u00e3o das quimeras que criamos, nem nos dissolvemos, derrotados, na desilus\u00e3o dos dias\u2026A vida, de t\u00e3o longa e mestra, entregou-me, rendida ao tempo, esta sabedoria de viv\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 longe, na casa antiga e gasta pr\u00f3xima da minha, vejo um corpo mudo erguer-se, parar e acenar-me lentamente. Ergo a minha m\u00e3o tr\u00e9mula num gesto que me custa, mas que, dada a circunst\u00e2ncia, sempre vale a pena, e sa\u00fado o vulto amistoso l\u00e1 longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas sauda\u00e7\u00f5es matutinas cumprem o nosso dever para com os outros e somos levados a crer que afinal participamos de uma uni\u00e3o que, apesar de maioritariamente silenciosa, ainda perdura no tempo, nos trouxe aqui e fez de n\u00f3s algo mais do que julg\u00e1vamos ser. Na irrepar\u00e1vel monotonia de todos os dias, acostumei-me ao facto de n\u00e3o avistar caras novas, apenas as mesmas que, com o tempo, se v\u00e3o desvanecendo e deixam de ser vistas \u00e0 janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Como anseio pela novidade neste est\u00e1gio final da vida! Como me admiraria se os campos e as ruas se tingissem de cores e gente novas, como me encantaria a oportunidade de cruzar um rosto novo e liso, iluminado pela vitalidade juvenil, arrastar o meu olhar consigo e levar um pouco de mim junto ao peito dilatado que a vida, nos seus prim\u00f3rdios, nos confere! Como me revejo incompleto e nost\u00e1lgico em tudo isto que me falha!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando era jovem e a vida era a for\u00e7a motriz de todo o encantamento, quimera e ideal realiza\u00e7\u00e3o, julgava-me completo e diferente dos demais. Hoje, destinado a ocupar este lugar e esta janela, mudo e im\u00f3vel, apenas entregue ao burburinho exasperante das minhas constata\u00e7\u00f5es, reconhe\u00e7o que todos os rostos que daqui avisto s\u00e3o iguais ao meu que se espelha no vazio: rostos marcados pelo tempo, tra\u00e7os ocultando hist\u00f3rias fadadas a grandes amores n\u00e3o perp\u00e9tuos, fatalidades v\u00e1rias e insignific\u00e2ncias mantidas por for\u00e7osa no\u00e7\u00e3o de dever. Somos a mesma mat\u00e9ria, constituindo uma uni\u00e3o tal e indecifr\u00e1vel que me faz crer que a irmandade \u00e9 a base not\u00f3ria e incontest\u00e1vel de toda a humanidade e neg\u00e1-la enquanto vivos revela a ignor\u00e2ncia de quem usufruiu de uma vis\u00e3o que nunca soube usar.<\/p>\n\n\n\n<p>Oxal\u00e1 tivesse a minha vista de outrora e ent\u00e3o deposit\u00e1-la-ia empaticamente nestes olhos que me seguem l\u00e1 longe nas janelas para ent\u00e3o lhes beber a alma que l\u00e1 vai dentro! Ter desta forma t\u00e3o simples e mec\u00e2nica a imensa vontade puls\u00e1til de querer saber quem s\u00e3o, de onde v\u00eam, para onde v\u00e3o! Mas abdico de tudo isto, porque estou vencido e eu pr\u00f3prio, \u00e0 margem de todos estes anos, nunca soube responder a nenhuma destas quest\u00f5es. Vivi sempre \u00e0 sombra da ideal imin\u00eancia de uma revela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria que nunca se chegou a apresentar. E a frustra\u00e7\u00e3o de outrora paulatinamente se converteu num comprazimento vergonhoso que, mesmo tendo dilu\u00eddo a chama que em mim habitava, nunca conseguiu apagar a tremenda d\u00favida que sempre me acompanhou.<\/p>\n\n\n\n<p>E o instinto de fugir \u00e0 d\u00favida monumental desvia-me a aten\u00e7\u00e3o novamente para o mesmo retrato esquecido. Dedico as minhas for\u00e7as parcas em estender o bra\u00e7o pesado e recolher nas m\u00e3os largas a prata que emoldura o retrato. Toda a minha aten\u00e7\u00e3o conflui na imagem que tenho defronte a mim: duas figuras monocrom\u00e1ticas, estreitas e direitas, envergando leves sorrisos e olhares luzidios e fugitivos. Pressente-se um magnetismo qualquer, uma harmonia na forma como os dois corpos se disp\u00f5em na fotografia e como a sua individualidade se complementa na uni\u00e3o que lhes subjaz no peito. Amam-se claramente, concluo por fim.<\/p>\n\n\n\n<p>E nisto, a observa\u00e7\u00e3o atenta da fotografia \u00e9-me interrompida pela feliz constata\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um pequeno peda\u00e7o de papel na parte de tr\u00e1s da moldura, preso e igualmente esquecido. Os dedos tremem-me, mas insisto em pegar-lhe e leio, por fim e com alguma dificuldade, as letras que nele v\u00eam inscritas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTive-te na minha vida. Assim, fiz tr\u00e9guas com o tempo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O nome feminino vinha inscrito por baixo, numa assinatura elegante e t\u00e9nue.<\/p>\n\n\n\n<p>E este \u00faltimo despertou em mim a maior reviravolta dos meus dias. Sou como que arrastado para um estado de confus\u00e3o e simult\u00e2nea revela\u00e7\u00e3o. Tudo se me ilumina, nada finalmente se contradiz, as linhas outrora turvas daqueles rostos esquecidos iluminam-se-me e reconhe\u00e7o-me a mim e a ela neles. Aqueles leves sorrisos de quem viu o amor vingar sobre todas as demais coisas deixou-me perplexo e senti, como senti na maior parte da minha vida que n\u00e3o foi acometida pelo esquecimento, que pertencia a algu\u00e9m, tal como algu\u00e9m outrora me pertenceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspiro profundamente o perfume que exala daquele m\u00edsero peda\u00e7o de papel. A lavanda recorda-me o seu vestido a ro\u00e7ar no verde espraiado dos campos aos fins da tarde e o amor pulsar-me no peito largo e esta matriz colorida de um verde fresco e um laranja tardio revela-me, por sua vez, uma inf\u00e2ncia minha que julgava para sempre esquecida. Revejo a minha juventude percorrer aquelas montanhas e ruas, hoje mudas, outrora musicais. Reconhe\u00e7o nestes campos a alegria de outrora, quando os percorria a seu lado e plant\u00e1vamos flores que haveriam de brotar nas primaveras da nossa uni\u00e3o. Recordo-me, ainda que por um instante brev\u00edssimo, que tamb\u00e9m lhe escrevia cartas cuja correspond\u00eancia vinha em seu nome, elegantemente impresso na sua eterna assinatura, acompanhado do seu perfume que, ainda n\u00e3o o sabendo, um dia me haveria de trazer aqui, a esta recorda\u00e7\u00e3o t\u00e3o d\u00f3cil quanto necess\u00e1ria do que era a vida e como sabia bem viv\u00ea-la!<\/p>\n\n\n\n<p>No leito da sua morte, e em honrosa contempla\u00e7\u00e3o do nosso amor, deixou-me, como testemunho verdadeiro de todos esses anos, a promessa de que a vida lhe valeu a pena, pois havia feito \u201cTr\u00e9guas com o tempo\u201d. O mesmo tempo que lhe encurtou a vida, tamb\u00e9m lhe concebeu graciosa e afortunada ao atribuir-lhe a significa\u00e7\u00e3o do amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela primeira vez em muito tempo, acode-me uma sensa\u00e7\u00e3o quente de tranquilidade, a nostalgia enrola-se-me no peito, a saudade aperta-o, mas a recorda\u00e7\u00e3o do nosso amor desfaz os mil n\u00f3s que me haviam prendido este tempo todo!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma l\u00e1grima justa, quente e l\u00facida rola pelo meu rosto e vejo-a pingar o peda\u00e7o de papel que tenho em m\u00e3os, pelo reflexo, agora reconhec\u00edvel, do meu aspeto na vidra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u00faltimos raios de sol atravessam os sulcos e a poeira da janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejo a mancha turva do sol esconder-se e a sua sombra e \u00faltimos reflexos anunciarem a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disto me inquieta.<\/p>\n\n\n\n<p>As d\u00favidas e a tormenta dissiparam-se.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha velhice era, afinal, uma virtude.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, posso ir, partir de vez, leve e convicto de quem fui e sou, pois tamb\u00e9m eu fiz tr\u00e9guas com o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pintura: Vincent Van Gogh<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>In\u00eas Maia A \u00faltima got\u00edcula de chuva derrama-se e escorre pela vidra\u00e7a, projetando-se no meu reflexo vago, como que contornando o aspeto enrugado da minha face esquecida, qual derradeira l\u00e1grima que acabarei por verter, finalmente\u2026 Na vidra\u00e7a poeirenta e com leves sulcos de desapego que condizem com a humidade esquecida destas paredes s\u00f3brias e deste [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":424,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[28],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/van_gogh_-_trauernder_alter_mann.jpeg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/422"}],"collection":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/424"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}