{"id":430,"date":"2023-03-09T15:00:30","date_gmt":"2023-03-09T15:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/hajasaudeemum.com\/?p=430"},"modified":"2023-03-09T15:00:30","modified_gmt":"2023-03-09T15:00:30","slug":"dia-mundial-da-rapariga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hajasaude.alumnimedicina.com\/index.php\/2023\/03\/09\/dia-mundial-da-rapariga\/","title":{"rendered":"Dia mundial da Rapariga"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\">Pedro Gon\u00e7alves<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos tempos otimistas, tempos onde a indiferen\u00e7a \u00e9 vista como uma atitude contra produtiva para o bem-estar da sociedade. Seja por raz\u00f5es culturais, educacionais ou pessoais, a discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser discrimina\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que desde 2012, no dia 11 de outubro, celebramos o Dia Mundial da Rapariga, relembrando a necessidade de apoiarmos as crian\u00e7as e jovens do sexo feminino, independentemente do seu pa\u00eds de origem. Os objetivos s\u00e3o claros: diminuir o abandono escolar precoce, impedir o casamento for\u00e7ado e qualquer forma de escravatura (sexual ou n\u00e3o) e punir de igual forma o ass\u00e9dio e a viola\u00e7\u00e3o. Visto tratar-se de um t\u00f3pico muito abordado e consequentemente banalizado, focar-nos-emos apenas numa das muitas atrocidades cometidas, a Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>A Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina (MGF) consiste na remo\u00e7\u00e3o parcial ou total da genit\u00e1lia externa da rapariga\/mulher, por raz\u00f5es n\u00e3o m\u00e9dicas, o que se traduz numa grave viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Esta pr\u00e1tica \u00e9 habitualmente realizada quando as v\u00edtimas ainda s\u00e3o crian\u00e7as ou jovens, por vontade da fam\u00edlia e do grupo social de onde estas s\u00e3o origin\u00e1rias. Esta pr\u00e1tica pode compreender v\u00e1rios n\u00edveis, desde a remo\u00e7\u00e3o do clit\u00f3ris e\/ou excis\u00e3o completa dos pequenos l\u00e1bios vaginais, ao encerramento da vulva. Neste \u00faltimo procedimento, tamb\u00e9m conhecido como Infibula\u00e7\u00e3o ocorre amputa\u00e7\u00e3o do clit\u00f3ris e dos pequenos l\u00e1bios, os grandes l\u00e1bios s\u00e3o seccionados, aproximados e suturados, sobrando uma min\u00fascula abertura para a passagem de urina e sangue menstrual. Esse orif\u00edcio \u00e9 mantido aberto por um pau de madeira ou palha. As pernas devem ficar amarradas durante 2 ou 6 semanas, levando ao desaparecimento da vulva. Caso a mulher se case, esta ser\u00e1 \u201caberta\u201d pelo marido (usando por vezes uma faca) ou por uma \u201cmatrona\u201d, mulher mais experiente no assunto. Mais tarde, quando se tem o primeiro filho, essa abertura \u00e9 aumentada para permitir o parto, j\u00e1 por si complicado visto que o tecido cicatricial n\u00e3o distende. Para al\u00e9m da atrocidade que estes procedimentos refletem, surgem ainda muitas outras complica\u00e7\u00f5es. Por se tratarem, muitas vezes, de interven\u00e7\u00f5es com recurso a l\u00e2minas e outros instrumentos n\u00e3o esterilizados numa regi\u00e3o anat\u00f3mica de extrema sensibilidade, \u00e9 natural o surgimento de dores intensas nas v\u00edtimas, dificuldade na elimina\u00e7\u00e3o da urina e fluxo menstrual, hemorragias fatais e infe\u00e7\u00f5es recorrentes, complica\u00e7\u00f5es nos partos, dificuldades e dor nas rela\u00e7\u00f5es sexuais e, de extrema import\u00e2ncia, as severas consequ\u00eancias a n\u00edvel psicol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que todos fazemos \u00e9 \u201cPorqu\u00ea?\u201d, porque \u00e9 que estas crian\u00e7as e raparigas s\u00e3o sujeitas a estas pr\u00e1ticas. Ora a MGF \u00e9 nada mais, nada menos que uma tentativa de controlar a sexualidade da mulher, alicer\u00e7ando-se nos ideais de pureza, mod\u00e9stia e est\u00e9tica, uma tradi\u00e7\u00e3o enraizada nas comunidades onde a desigualdade de g\u00e9nero \u00e9 abertamente aceite. Para quem executa a MGF, geralmente outras mulheres, nomeadamente m\u00e3es e av\u00f3s, esta \u00e9 vista como motivo de honra e orgulho, com o intuito de evitar a exclus\u00e3o social das suas crian\u00e7as e jovens. Infelizmente, para as mulheres que deixam a cultura que pratica MGF, \u00e9 comum o desenvolvimento de sentimentos de humilha\u00e7\u00e3o, impot\u00eancia, vergonha e trai\u00e7\u00e3o familiar quando descobrem que a sua condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dos problemas nesta pr\u00e1tica est\u00e1 na crescente medicaliza\u00e7\u00e3o da MGF. Isto leva \u00e0 falsa ideia de que esta interven\u00e7\u00e3o sem quaisquer benef\u00edcios m\u00e9dicos tem legitimidade, o que contribui para a sua institucionaliza\u00e7\u00e3o e no pior dos cen\u00e1rios a dissemina\u00e7\u00e3o da MGF em grupos culturais que atualmente n\u00e3o a aplicam.<\/p>\n\n\n\n<p>Falemos agora de n\u00fameros. De acordo com os dados dispon\u00edveis, a MGF \u00e9 praticada em cerca de 28 pa\u00edses africanos e muitos outros no M\u00e9dio Oriente e \u00c1sia, n\u00e3o esquecendo as comunidades de imigrantes na Europa, Am\u00e9rica e Austr\u00e1lia. A UNICEF partilhou em 2016 uma estimativa de 200 milh\u00f5es de v\u00edtimas de MGF em 30 pa\u00edses e salienta que, desses 200 milh\u00f5es, mais de metade dos casos referem-se a 3 pa\u00edses: Indon\u00e9sia, Egito e Eti\u00f3pia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, segundo a Associa\u00e7\u00e3o para o Planeamento da Fam\u00edlia, h\u00e1 mais de 8 000 mulheres, raparigas e meninas que foram v\u00edtimas ou que est\u00e3o em risco de serem sujeitas \u00e0 pr\u00e1tica. Os registos oficiais, baseados maioritariamente nos casos que chegam aos hospitais, apontam para cerca de 6 500 mulheres mutiladas, praticamente todas elas oriundas de comunidades mu\u00e7ulmanas de origem africana, na sua maioria da\u00a0Guin\u00e9-Bissau, e tamb\u00e9m da\u00a0Guin\u00e9-Conacri,\u00a0Senegal\u00a0e\u00a0Egito. Os casos s\u00e3o muitas vezes detetados por m\u00e9dicos apenas quando as mulheres e raparigas j\u00e1 apresentam complica\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, sexuais, obst\u00e9tricas, urol\u00f3gicas ou ginecol\u00f3gicas. Em 2015, a pr\u00e1tica de MGF passou a ser crime pun\u00edvel por lei com pena de pris\u00e3o de 2 a 10 anos. S\u00e3o tamb\u00e9m considerados crime todos os atos preparat\u00f3rios de MGF, nomeadamente, levar as mulheres ou crian\u00e7as a viajar para fora do pa\u00eds com o objetivo de serem submetidas a MGF.<sup>\u00a0 <\/sup>Ainda este ano, uma cidad\u00e3 guineense residente em Portugal, foi condenada a 3 anos de pris\u00e3o por ter submetido \u00e0 pr\u00e1tica uma filha, na altura com um ano de idade, durante uma estadia de tr\u00eas meses na Guin\u00e9-Bissau, em 2019. Este foi o primeiro julgamento por este crime em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Termino apelando a todos que n\u00e3o caiam na tend\u00eancia de banalizar, esquecer ou relativizar o assunto que agora foi debatido. Ao contr\u00e1rio daquilo que pensamos, esta n\u00e3o \u00e9 uma realidade distante com qual n\u00e3o nos devamos preocupar. Esta, infelizmente, \u00e9 uma verdade presente em pleno s\u00e9c. XXI e \u00e9 crucial que nos insurjamos contra estas pr\u00e1ticas ansiando, num futuro pr\u00f3ximo, falar destas tem\u00e1ticas apenas como factos hist\u00f3ricos. \u00c9 assim e s\u00f3 assim que o Dia Internacional da Rapariga deve ser celebrado, consciencializando-nos da dura realidade que muitas crian\u00e7as, jovens e mulheres atravessam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Gon\u00e7alves Vivemos tempos otimistas, tempos onde a indiferen\u00e7a \u00e9 vista como uma atitude contra produtiva para o bem-estar da sociedade. 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